Consciência Negra

-A +A
Origem: 
EAUFBA

Machado de Assis (1839-1908) - escritor, jornalista e poeta

Machado de Assis

Machado de Assis

Nascido no Rio de Janeiro, Joaquim Maria Machado de Assis nasceu numa família pobre. Desde pequeno, o menino se interessava pelos livros e aprendeu francês, idioma com o qual escreveria alguns poemas.

Foi funcionário público em vários ministérios, enquanto desenvolvia sua atividade literária publicando crônicas e contos nos jornais.

Ainda assim escreveria nove romances fundamentais para a literatura brasileira dentre os quais se destacam "Dom Casmurro" e "Memórias Póstumas de Brás Cubas".

Além disso, fundou a Academia Brasileira de Letras, e foi seu primeiro presidente. A instituição ainda cumpre um importante papel na divulgação da língua portuguesa e tem a sua sede no Rio de Janeiro. 

Ernesto Carneiro Ribeiro, biomédico, professor, linguista e filólogo

O sertanejo é antes de tudo um forte.

Clássico da literatura brasileira, Os sertões, escrito por Euclides da Cunha, é daquelas obras indispensáveis para se formar um autêntico retrato do Brasil. Sua frase mais conhecida, destacada acima, simboliza a luta do homem sertanejo contra as adversidades da natureza, e sua formação histórica.

Que Euclides da Cunha tenha se firmado como um dos nomes mais relevantes de seu tempo, também não restam dúvidas, e assim como inúmeras outras figuras proeminentes da literatura e política nacional, como Rui Barbosa, suas origens remontam a um mesmo nome comum, o do baiano e sertanejo Ernesto Carneiro Ribeiro, médico, professor, linguista e tornado Barão de Vila Nova, graças a seu trabalho em biomedicina.

Responsável por desenvolver a primeira gramática de língua portuguesa a de fato dialogar com os detalhes científicos e corriqueiros da língua falada, o baiano tornou-se uma figura de impacto nacional ao travar com seu ex-aluno, Rui Barbosa, um embate sobre o código civil brasileiro, publicado no início do século XX. Em um espaço de quatro dias, Ernesto Ribeiro revisaria a publicação desenvolvida pelo jurista Clóvis Bevilacqua.

Rui, que na época presidia a comissão do senado responsável pela aprovação do código, faria seu parecer com 560 páginas, em três dias, resumindo a obra como “tosca, indigesta e aleijada”, fato que levaria Ernesto a comprar a briga sobre o projeto. Ao fim, feitas réplicas e tréplicas, o projeto acabaria sendo aprovado, com importantes mudanças e sugestões de Ernesto.

Na Bahia, seu estado natal e onde fundou uma escola com apoio do império, foi responsável por desenvolver um dos primeiros planos nacionais para debelar a miséria na qual se encontrava a educação na província.

Cruz e Sousa

Dante negro, como tornou-se conhecido, Cruz e Sousa é um dos inúmeros autores brasileiros a utilizar seu prestígio e articulação na defesa da causa abolicionista. Estudou em alguns dos melhores colégios de sua época, graças ao apoio da família Sousa (de quem adotaria o sobrenome), patrões de seus pais, negros alforriados.

Em sua obra, um marco na história do Simbolismo no Brasil, explicita sua bagagem cultural africana e sua educação europeia. Tendo sido professor e jornalista, Cruz e Sousa chegou a comandar um jornal em Santa Catarina, onde defendia abertamente a abolição da escravatura, o que o levaria a percorrer o país em campanha.

A vida sofrida e a situação de escravo liberto em um país ainda escravagista e racista fizeram da carreira de Cruz e Sousa um marco para desafiar os padrões da época, fato que se refletiu em sua obra, que rompeu o classicismo mantido pelos poetas parnasianos. Como destaca o autor francês Roger Bastide, foi justamente seu caráter único e com foco na razão e no individualismo que lhe permitiu transcender tais padrões e firmar-se como proeminente autor da literatura nacional.

Sua morte prematura não impediu que sua obra tivesse grande impacto, e o eternizasse como um dos símbolos da luta pelas liberdades individuais, da racionalidade e da poesia nacional.

Carolina Maria de Jesus

Exatas 15 mil cópias são necessárias, segundo a Câmara Brasileira do Livro para tornar um escritor brasileiro autor de best-seller. Pouco menos de duas semanas foi o tempo necessário para que a neta de escravos e filha de pais analfabetos Carolina Maria de Jesus atingisse o feito com a publicação de seu livro Quarto do Despejo: diários de uma favelada, obra que hoje acumula mais de um milhão de cópias vendidas e publicadas em mais de 14 idiomas.

Tendo se mudado para a favela Canindé, na zona norte da capital de São Paulo em 1937, Carolina passou boa parte da vida batalhando para sustentar seus filhos com o trabalho de catadora de papelão, material que também utilizou para construir sua primeira casa na favela paulista. Ao mesmo tempo, registrava copiosamente seu cotidiano e o da comunidade em que vivia.

Em 1960, descoberta pelo jornalista Audálio Dantas, um de seus diários tornou-se livro, sendo publicado dois anos depois nos Estados Unidos, sob o título Child of The Dark. Sobre sua obra, a crítica da época descreveria como “direta, nua e crua, porém suave”.

Por descrever o retrato de um pedaço quase invisível do Brasil para muitos, Carolina consagrou sua obra e atraiu a raiva de inúmeros membros da comunidade em que vivia, contrariados ao verem seu cotidiano exposto dessa forma. Agredida física e moralmente pelos vizinhos, terminou por mudar-se dali com os recursos obtidos graças aos direitos autorais.

 Luiz Gama

Escritor, jornalista, advogado, baiano ilustre ou ninguém menos que o maior abolicionista do Brasil: Luiz Gama. Nascido de mãe negra livre e pai branco em 1830, foi escravizado ilegalmente pelo próprio genitor aos dez anos, vendido para o pagamento de uma dívida de jogo. Foi transportado para o Rio de Janeiro em 1840, ficando com o comerciante Vieira, que o vendeu para o alferes Antonio Pereira Cardoso, de São Paulo, em um lote de mais de 100 escravos.

Como os escravos baianos tinham a fama de “fujões”, o alferes não conseguiu vender Luiz Gama, que acabou sendo utilizado como empregado doméstico na fazenda de Cardoso, em Lorena, no interior do estado. Em 1847, quando Gama tinha 17 anos, o estudante Antônio Rodrigues de Araújo foi recebido e ficou hospedado na fazenda do alferes, travando amizade com o escravo e ensinando-o a ler e escrever.

Com o letramento, Gama percebeu que havia sido escravizado ilegalmente. Fugiu para a cidade de São Paulo em 1848, onde conseguiu sua libertação por via judicial. Tentou frequentar o curso de direito como ouvinte na Faculdade do Largo de São Francisco, mas foi vítima de vil racismo de seus colegas, em grande parte pertencentes à elite escravocrata paulista. Foi então que decidiu estudar a profissão como autodidata e tornou-se rábula (advogado sem diploma), passando a atuar ativamente pela libertação de escravos nos tribunais, tendo conseguido a soltura de mais de 500 cativos. Já reconhecido como advogado e admirado, teve escritório com os professores Dino Bueno e Januário Pinto Ferraz.

Um dos raros intelectuais negros de seu tempo, Luiz Gama é reconhecido também pela sua produção literária abolicionista. Na década de 1860 tornou-se jornalista influente, ligado aos círculos do Partido Liberal. Chegou a fundar seu próprio periódico, “O Radical Paulistano”, onde dividiu espaço com seu amigo e companheiro Rui Barbosa. Sua liderança fez todo o movimento abolicionista de São Paulo orbitar em torno de si. Sua morte, decorrente de diabetes em 1882 (aos 52 anos), gerou imensa comoção na sociedade paulistana.

Dragão do Mar, pioneiro na abolição dos escravos

Todos sabem que a abolição da escravatura no Brasil se deu em 1888 com a assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel. O que poucos sabem, no entanto, é que cinco anos antes a província do Ceará aboliu a escravatura e libertou todos os seus escravos.

Um dos principais responsáveis por isso foi Francisco José do Nascimento, conhecido como Chico da Matilde. Ele foi um jangadeiro de origem pobre, pardo e trabalhador do mar. Com a morte de seu pai, sua mãe o criou com muitas dificuldades, tendo trabalhado desde os oito anos de idade como garoto de recados a bordo de embarcações, a fim de ajudar no sustento da família. Assim, logo conheceu a realidade do tráfico negreiro.

Aos 20 anos ele conseguiu se alfabetizar e tornou-se marinheiro, trabalhando no percurso Maranhão-Ceará. 15 anos depois, em 1874 ele assumiu a posição de prático da Capitania dos Portos.

Sensibilizou-se com a causa pela libertação dos escravos ao participar no Congresso Abolicionista realizado em Maranguape em 26 de maio de 1881. Estimulado pela  Sociedade Cearense Libertadora, ele fechou o Porto de Fortaleza em 30 de agosto daquele ano a fim de impedir o embarque de escravos para outras províncias. A partir daí passou a conduzir sua jangada em direção às embarcações que entrassem no Porto do Mucuripe para comunicar o rompimento do tráfego negreiro no Estado. Chico da Matilde também utilizou sua residência para esconder escravos foragidos. Por liderar a paralisação ele perdeu o cargo de prático, posição que voltou a ocupar apenas em 1889 por ordem de Dom Pedro II.

Suas atitudes foram aclamadas pela imprensa abolicionista nacional e, ao desfilar pelas ruas, recebeu homenagens da multidão e um novo nome: Dragão do Mar. Isso contribuiu para o crescimento da campanha abolicionista, criando-se diversos núcleos abolicionistas em vilas e cidades cearenses. O número de alforrias na província cresceu e em 24 de maio de 1883, Chico estava na sessão da assembleia que libertou os escravos de Fortaleza. Em 25 de março do ano seguinte, todos os escravos da província do Ceará conquistaram, enfim, sua liberdade, sendo a província pioneira na abolição da escravatura.

A abolição, entretanto, não concluiu suas lutas. Em 1902 o “Navegante Negro”, como também era chamado, promoveu uma greve dos trabalhadores de embarcações quando apenas negros foram sorteados para prestar serviços militares, enfrentando o governador Pedro Borges.

Dragão do Mar é um dos maiores símbolos de resistência à escravidão no país. Em 2017 seu nome foi inscrito no Livro dos Heróis da Pátria, localizado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília.

Mãe Menininha do Gantois, símbolo da tolerância religiosa

Lideranças religiosas carismáticas e progressistas costumam ser lembradas por seu impacto na sociedade, além de seus seguidores devotos. Foi o caso de Maria Escolástica da Conceição Nazaré, um nome que correu o mundo. Descendente de escravos, nasceu no final do século XIX e é considerada a mãe de santo mais admirada do país por, ao longo de 64 anos de direção, ter tornado o terreiro de candomblé de Salvador o mais respeitado do Brasil.

O apelido “Menininha” se deu por ser franzina, mas sua coragem e diplomacia eram marcantes. Historiadores argumentam que seu terreiro sobreviveu à perseguição policial aos cultos afros que vigorou no início do século XX, graças às suas habilidades.

Na década de 1930 uma lei de jogos e costumes condicionava a realização de rituais à autorização policial, além de limitar o horário de término dos cultos às 22h, o que contrariava sua tradição religiosa. Mãe Menininha foi uma das principais lideranças de um movimento que acabou por revogar a Lei de Jogos e Costumes.

Uma das formas de combater o preconceito e a intolerância religiosa de Menininha foi tomar atitudes progressistas dentro do candomblé: ela abriu as portas do Gantois a brancos e católicos, algo que não era permitido em muitos terreiros. Assim, passou a ser muito visitado por pessoas de todo o país, adeptas de diferentes religiões. Seu diálogo com outras religiões permitiu convencer bispos da Bahia a autorizarem a entrada nas igrejas de mulheres vestidas com as roupas tradicionais do candomblé.

Um de seus méritos foi equilibrar sua costumeira receptividade e não permitir a exploração do que considerava sagrado. Como todas as ialorixás do seu tempo, ela fazia questão de ganhar o próprio sustento comercializando frutas e doces, sendo dona de restaurante e costurando, não cobrando pelos serviços que prestava: definia o seu terreiro como uma “casa de caridade”.

Nas últimas décadas de sua vida, praticamente não saia de sua cama, mas era visitada por todo tipo de gente, inclusive autoridades. Em 1976 ela foi homenageada pela Escola de Samba carioca Mocidade Independente de Padre Miguel com o enredo do carnavalesco Arlindo Rodrigues e interpretação de Elza Soares.

 

Tereza de Benguela - rainha do Quilombo de Quariterê

Treza de Benguela

Tereza de Benguela

Foi a rainha do Quilombo de Quariterê, no Mato Grosso. Após a morte do companheiro, liderou a luta do quilombo contra os soldados portugueses. Sua grande inovação foi a instituição de um Parlamento no quilombo onde se discutiam as normas que regulavam o funcionamento do lugar.

Após ter tido seu exército derrotado, Tereza de Benguela foi morta e decapitada com a cabeça exposta em praça pública. Desta maneira, o governo pretendia o castigo servisse de exemplo para que ninguém voltasse a desafiá-lo.

Dia 25 de julho, data de sua morte, é celebrado o Dia da Mulher Negra no Brasil.

 

 

Tia Ciata

 

Tia Ciata é considerada matriarca do samba brasileiro e referência do candomblé no início do século 20.

 

Praça Onze, Rio de Janeiro, início do século 20. O quintal de Tia Ciata, no coração do centro carioca, era reduto da música, da fé e da resistência. Em sua casa, grandes compositores do Rio Janeiro se juntavam ao moradores da Pequena África - como era conhecido o bairro que abrigava negros, judeus e imigrantes - para festejarem, cantarem e dançarem samba de roda.

Foi naquele quintal festivo que Donga compôs Pelo Telefone. Em 27 de novembro de 1916, ele registrou sua composição como "samba carnavalesco" na Biblioteca Nacional. Era o primeiro samba registrado e gravado na História do País.

 

Compartilhe no Facebook! Compartilhe no Twitter!